Ayn Rand e a Atividade Mental do Ser Humano (A “Mente”)

O humano ao nascer é um ser (ou uma entidade) material que tem vida – um ser material vivo.

Um ser é um ente (ens, entis, em Latim), ou seja, qualquer coisa que é, qualquer coisa que existe, qualquer coisa que faz parte da realidade.

Para materialistas, falar em “ser material” é redundância, pois faz parte da filosofia materialista a tese de que todo ser é material. Mesmo não materialistas, porém, admitem que o ser humano é uma entidade material – mesmo que, em seu âmago, seja uma entidade, digamos, espiritual.

Como material, o ser humano tem tamanho, peso e outras características (forma, cor, etc.), da mesma forma que outros seres materiais, vivos ou não. Ele é, como o diria Descartes, uma coisa extensa (res extensa), algo capaz de ocupar lugar no espaço.

Como material e vivo, o ser humano é capaz de respirar, movimentar a cabeça, os membros e até o tronco, alimentar-se (ou, no caso do ser humano, inicialmente ser alimentado), excretar a parte não aproveitada dos alimentos que ingere, exalar cheiros, sentir dor e prazer, ouvir e emitir sons (neste caso, chorar, por exemplo), ver o que se passa ao seu redor, etc. Oportunamente, ele poderá reproduzir-se. E o ser humano pode, a qualquer momento, perder a vida, isto é, morrer. Alguns, infelizmente, já nascem mortos – isto é, morrem mesmo antes de nascer.

As características do ser humano como ser vivo se assemelham bem mais às características de seres animais do que às características de seres vivos não animais, como as plantas.

Plantas nascem, respiram, movimentam-se, alimentam-se, excretam substâncias, exalam cheiros, reproduzem-se, e, naturalmente, também morrem. Pelo menos isso. Mas, tanto quanto sabemos, plantas não emitem sons (embora haja quem admita que ouvem sons), nem veem o que se passa ao seu redor, embora reajam ao tipo de ambiente que encontram. Se ainda não há, vai aparecer quem admita que as plantas possam realmente observar ou pelo menos sentir o que se passa em torno delas.

Animais, por sua vez, fazem tudo isso mas, pelo menos no caso dos animais de estrutura mais sofisticada, os ditos superiores, também são dotados de órgãos dos sentidos que lhes permitem, sem qualquer dúvida, ver, ouvir, cheirar, sentir gostos, apalpar e sentir. E, sem dúvida, são capazes de emitir sons. E sem dúvida alguma sentem (e sabem manifestar) dor e prazer – e outros sentimentos, como, por exemplo, indiferença e irritação.

Por essas e por outras é que o ser humano tem sido sempre classificado como um ser material vivo animal, tendo sido colocado (por humanos, naturalmente) sempre no topo da categoria dos animais (a subcategoria dos animais vertebrados mamíferos superiores).

Mas, desde os primórdios da filosofia, tem se admitido (por humanos, naturalmente) que o ser humano tem características especiais que o colocam à parte, numa categoria própria, dos demais seres materiais vivos animais. A razão para isso está no fato de que ele tem capacidades ou faculdades que lhe permitem realizar atividades que, tanto quanto sabemos, outros animais, mesmo bastante sofisticados em sua estrutura e em suas características, não são capazes de realizar.

Os animais de estrutura e características mais sofisticadas (os chamados superiores) podem perceber o mundo que os cerca e podem sentir. Mas, tanto quanto sabemos, esses animais não são capazes de integrar e organizar o material que percebem pelos sentidos (percepta, perceitos) e, com base nas similaridades que porventura existirem entre eles, formar entidades abstratas (concepta, conceitos). Conceitos são formados através da atividade racional de abstrair de certos grupos de perceitos características semelhantes que lhes são consideradas essenciais, pois que sempre aparecem juntas. Seres humanos são capazes de fazer isso. Os conceitos que produzem lhes permitem evocar as entidades que possuem essas características, e se referir a elas, com maior facilidade, mesmo quando elas não estão diante de seus olhos ou de algum dos outros órgãos dos sentidos seus.

Ao longo de alguns anos de vida, um ser humano típico percebe (vê, observa) pelo menos uma centena de entidades que nós, por exemplo, chamamos de mesas. Ele poderia dar um nome próprio a cada uma delas: mesa1, mesa2, mesa3, etc.  Mas não, ele pensa (reflete) e conclui que essa centena de entidades têm características comuns, sempre presentes em todas as instâncias particulares que ele observa, características comuns que lhe permitem diferencia-las de outras entidades que ele prefere colocar em categorias distintas, como, por exemplo, cadeiras, bancos e sofás. E são essas características comuns consideradas essenciais que lhe permitem definir o conceito de mesa. Entre as entidades plurais percebidas e o nome (comum, não próprio) que usamos para nos referir a elas em nossa linguagem, há uma entidade abstrata que é formada mentalmente e que é o referente desse nome.

Ou seja: o ser humano é capaz de pensar e refletir sobre os materiais concretos que lhe são fornecidos pela percepção sensorial (perceitos, percepta) e integra-lo e organiza-lo em entidades abstratas (conceitos, concepta). Ele pensa, reflete e emite juizos em cima de conceitos. A capacidade ou faculdade que lhe permite fazer isso tem sido chamada, tradicionalmente, na filosofia, de razão.

É por isso que o ser humano, além de ser material, vivo, e animal, é considerado um animal racional. Ele é capaz de pensar e refletir, e ele pensa e reflete através de conceitos. Tanto quanto sabemos, nenhum outro animal é capaz de fazer isso, o que torna o ser humano um animal pertencente a uma espécie única, a do homo sapiens – em que o termo “homo”, é bom que se diga (vai que a Dilma Rousseff resolver ler este artigo), não faz diferenciação de sexo. O ser humano é um animal racional, vale dizer, como prefere Descartes, uma coisa material viva animal que pensa, uma coisa que pensa, uma coisa pensante (res cogitans).

Por pensar e refletir, e faze-lo através de conceitos (e não diretamente através de perceitos), o ser humano acabou por se tornar capaz de, ao contemplar a realidade, também fazer escolhas (avaliar, preferir), tomar decisões e agir. Assim, o ser humano é capaz de realizar uma série de atividades que outros animais não são capazes de realizar. Essas atividades (pensar, refletir, imaginar, avaliar, preferir, escolher, decidir, agir) são geralmente chamadas de atividades mentais. Se existe uma entidade, a que possamos dar o nome de “mente”, que torna isso possível, ou se isso se torna possível simplesmente em decorrência da maior sofisticação do cérebro e do sistema nervoso central do ser humano, não vem ao caso discutir no momento. Aqui basta reconhecer que o ser humano é capaz de realizar atividades que nós, criando um novo conceito, chamamos de mentais.

(Num parêntese, podemos assinalar que o surgimento, na espécie humana, da capacidade mental de elaborar conceitos, ao longo da cadeia evolutiva dos animais superiores, apresenta aos defensores das teorias da evolução natural das espécies um desafio maior do que o representado pelo aparecimento da vida, porque aqui, no caso da “mente”, parece existir um nítido salto evolutivo único. Fim do parêntese.)

É realizando essas atividades que o homem constrói conceitos cada vez mais abstratos e sofisticados e, assim, se torna capaz de descrever e explicar a realidade. Mas mesmo os conceitos mais abstratos e sofisticados precisam ser redutíveis a materiais perceptíveis (percepta) – embora seja possível fazer conceitos de conceitos, ou abstrações de abstrações. Mas, em última instância, todas essas abstrações, mesmo as de altíssimo nível, precisam estar ancoradas em perceitos, i.e., materiais diretamente percebidos na realidade. O resultado dessas atividades é o que chamamos de conhecimento ou saber. O ser humano é, portanto, um ser cognoscente ou sapiente, capaz de conhecer a realidade.

Esta é basicamente a epistemologia de Ayn Rand, derivada em sua maior parte de Aristóteles. Por isso ela, e sua filosofia, o Objetivismo, são empiristas-racionalistas. Kant, que ela detesta, tentou juntar, para transcende-los, o empirismo e o racionalismo, ou o sensacionalismo (de sensações) material (observável, sensorial) com o idealismo (de ideias) mental, mas, no processo, concluiu que não é possível conhecer as coisas como elas são em si mesmas (Dinge an sich, noumena). Assim, satisfez-se com a conclusão de que só temos acesso às coisas que estão em nossa mente (phenomena), abandonando um lado da equação. A consequência natural do pensamento de Kant se vê em Hegel, para quem tudo é ideia (Idealismo).

Não sendo materialista, é muito mais fácil para um idealista acreditar na possibilidade de que haja seres vivos que não sejam materiais, como, por exemplo, anjos, espíritos, a alma humana, e, no limite, Deus. Esses seres, diferente dos seres vivos materiais, não ocupariam lugar no espaço nem seriam impedidos de se fazer manifestos em um determinado lugar por objetos materiais como, por exemplo, portas e paredes (ou mesmo o corpo humano, no caso da alma, que poderia sair vagando por aí e se desligaria do corpo na morte). Deus, no limite, estaria presente em todo lugar ao mesmo tempo (onipresença, ubiquidade). Por isso Ayn Rand muita vezes usa o termo “misticismo” para se referir à posição de Kant (e de Hegel). Para ela, que não abre mão do empiricamente observável, a filosofia de Kant não faz sentido, pois torna incognoscível exatamente o que mais é preciso conhecer, a realidade, propriamente dita.

Isso não quer dizer que, para Ayn Rand, o ser humano seja uma entidade dual, corpo e mente. Para ela, a mente é, no caso dos seres humanos, uma função do corpo – tanto que a atividade mental do ser humano desaparece quando ele morre – e não fica por aí, desencarnada, tentando fazer contatos de qualquer grau que sejam.

Em Salto, 14 de Junho de 2016

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Everything is something

[Artigo publicado no meu blog Philosophical Space e no meu blog Liberal Space em 14 de Setembro de 2013. Infelizmente, em Inglês. Publico-o agora aqui. Quem sabe qualquer hora o traduza para o Português – se eu encontrar traduções viáveis para “everything is something” e “nothing is anything”, além de “todas as as coisas são alguma coisa” e “nenhuma coisa é alguma coisa”, ou “tudo é algo” e “nada é algo”… Aceito sugestões.]

In Ayn Rand’s Atlas Shrugged, during the party organized by Hank Rearden’s wife Lillian to celebrate their anniversary, there are fantastic dialogues. One of them has to do with Hugh Akston, the person who gives his name to this blog [Philosophical Studio used to be called Akston Lounge]. I will relate it at the end of this article.

Dr.  Simon Pritchett is, for a time, the center of attention. He is the Chairman of the Department of Philosophy of Patrick Henry University, in Cleveland, OH, where the three heroes of the novel, John Galt, Francisco D’Anconia and Ragnar Danneskjöld once studied, under Hugh Akston, who was the Chairman of the Department prior to Dr. Pritchett.

It is interesting that Pritchett is always called Dr. Pritchett, or simply Professor (even, ironically, by Francisco d’Anconia, who even bows to him, in simulated respect), whereas Akston is referred to as simply Hugh Akston (even by his students)…

Pritchett can be described as a post-modernist, or a philosophical deconstructionist, intent on destroying everything that was at the basis of rational philosophy.

“Man? What is man?”, he asks — and replies: “He’s just a collection of chemicals with delusions of grandeur”, or “a miserable bit of protoplasm” that “imagines itself important” (p.131).

Standards? “There aren’t any standards” (p.132).

If so, what is the purpose of philosophy? “It remained for our century to redefine the purpose of philosophy. The purpose of philosophy is not to help men find the meaning of life, but to prove to them that there isn’t any” (p.132). “The purpose of philosophy is not to seek knowledge, but to prove that knowledge is impossible to man” (p.133). The duty of a philosopher “is not to explain, but to demonstrate that nothing can be explained” (p.133).

In the sequence he says that man is such a difficult creature because he insists  in considering himself important in the overall scheme of things, in viewing his activities as significant… “Once he realizes that he is of no importance whatever in the vast scheme of the universe, that no possible significance can be attached to his activities, that it does not matter whether he lives or dies, he will become much more … tractable” (p.132).

Indeed!

In the socio-political realm, he defends a decree issued by the government called the Equalization of Opportunity Bill. This bills tries to equalize the field, compelling those who are quite successful, in whatever activity in the economic realm, to divest of some of their interests, or to limit their output, so that less successful people can have a chance to compete…

Says Pritchett: “I am in favor of it, because I am in favor of a free economy. A free economy cannot exist without competition. Therefore, men must be forced to compete” (p.132).

A novelist, Balph Eubank, intervenes in the discussion to defend the thesis that the Equalization of Opportunity Bill ought to be applied even in the literary realm (p.133). “It would be very simple” to do it. “There should be a law limiting the sale of any book to ten thousand copies. This would throw the literary market open to new talent, fresh ideas, and non-commercial writing. If people were forbidden to buy a million copies of the same piece of trash, they would be forced to buy better books” — such as the ones he writes, which never sold more than three thousand copies (p.134). In fact, he argues that “only those whose motive is not money-making should be allowed to write” (p.134).

(Brazilians can compare this to the attempts by its socialist government to “democratize the monopolistic media”…).

“Plot”, says Eubank, “is a primitive vulgarity in literature” (p.134).

“Just as melody is a primitive vulgarity in music”, adds a third participant, Mort Liddly (p.134).

“Property rights are a superstition”, says a fourth participant in the discussion, Bertram Scudder (p.135).

Reason “is the most naïve of all superstitions”, says Pritchett. Men only believe in it because they “suffer from the popular delusion that things can be understood” (p.132). “Logic is a primitive vulgarity in philosophy”, he continues (p.134), only to close the discussion a few moments later with a magistral conclusion: “Nothing is anything” (p.141).

At this point Francisco d’Anconia breaks into the discussion to remind the participants that Hugh Akston, his teacher of old, taught, in contrast to Pritchett’s conclusion, that “everything is something” (p.142).

Nothing is anything vs everything is something.

Akston’s thesis is that everything that exists is something, has a particular nature, that leads it to behave in a particular manner — and that, through observation and reflexion, we can know what that nature is.

The enormous list of absurdities that the participants in the discussion state is the result of their negation of the thesis that everything is something. With Pritchett, they all believe that nothing is anything.

In São Paulo, on the 14th of September of 2013