Fundamentos da Ética Egoísta-Racional de Ayn Rand

[Compilação de citações de Ayn Rand e análises dessas citações feitas por Eduardo Chaves, em Agosto de 1997]

Egoísmo:

“O significado exato e a definição do dicionário para a palavra ‘egoísmo’ é: preocupação com os próprios interesses. Esse conceito não inclui avaliação moral; não nos diz se a preocupação com os nossos próprios interesses é boa ou má; nem nos diz o que é que define e constitui os interesses reais do homem. É tarefa da ética responder a tais questões.” (VE, p.14)

Altruísmo:

A contrapartida do conceito de egoísmo é o conceito de altruísmo, que deve, consequentemente, significar, preocupação com os interesses dos outros. Poder-se-ia dizer, igualmente, que o conceito não inclui avaliação moral; não nos diz se a preocupação com os interesses dos outros é boa ou má; nem nos diz o que define e constitui os interesses dos outros. É tarefa da ética responder a tais questões.

Moralidade:

A moralidade é um código de valores que guia as escolhas, decisões e ações dos homens, e, assim, determina o propósito e o curso de sua vida. É um código através do qual ele julga o que é certo ou errado, bom ou mal (p. 20; cf. Ayn Rand, “Faith and Force: The Destroyers of the Modern World”, in PWNI, p.61; “For the New Intellectual”, in FNI, p.18).

Ética:

A ética é a tentativa de definir esse código de valores (VE, p.20).

Valores:

Um valor, afirma Rand, é aquilo que alguém age para ganhar ou manter. Um valor supremo é aquele valor para o qual todos os outros valores são meios. Na verdade, para Rand, é a existência de um valor último, que é, necessariamente, um fim em si mesmo, que permite que os meios de alcançá-lo se tornem valores (intermediários). “É apenas um alvo último, um fim em si mesmo, que torna a existência de valores possível” (VE, pp.23-24).

A noção de valor pressupõe que exista alguém que possa agir para ganhar ou manter alguma coisa, ou seja, que existam seres que possam se comportar de forma a atingir um alvo, uma meta.

Essa noção de valor pressupõe, também, que esse ser confronte alternativas, que existam várias e diferentes coisas que ele pode desejar ganhar ou manter. “A moralidade tem a ver somente com a esfera da liberdade humana, somente com aquelas ações que estão abertas à escolha do homem” (Rand, PB).

Isso significa que apenas seres vivos podem ter valores, pois somente eles, na natureza, podem agir para alcançar alvos e metas, e somente eles são confrontados por alternativas. Dos seres vivos, apenas o homem pode ter um código de valores, e, consequentemente, uma moralidade e uma ética.

A Ética Altruísta:

“O altruísmo [enquanto moralidade] declara que qualquer ação praticada em benefício dos outros é boa, e qualquer ação praticada em nosso próprio benefício é má. Assim, o beneficiário de uma ação é o único critério de valor moral – e contanto que o beneficiário seja qualquer um, salvo nós mesmos, tudo passa a ser válido” (VE, p.15).

A Crítica à Ética Altruísta:

“Dado que a natureza não provê o homem com uma forma automática de sobrevivência, dado que ele tem de sustentar sua vida através do seu próprio esforço, a doutrina que diz que a preocupação com nossos próprios interesses é nociva [evil] significa, consequentemente, que o desejo de viver do homem é nocivo – que a vida do homem, como tal, é nociva. Nenhuma doutrina poderia ser mais nociva [evil] do que esta” (VE, p.16)

 “Observe o que [a ética altruísta] faz à vida de um homem. A primeira coisa que ele aprende é que a moralidade é sua inimiga: não ganha nada com ela, apenas perde; tudo o que pode esperar [se for moral] são perdas auto-impostas, dores auto-impostas e o manto cinzento e deprimente de uma obrigação incompreensível. Ele pode esperar que os outros possam, ocasionalmente, sacrificar-se em seu benefício, assim como ele se sacrifica de má vontade, em benefício deles, mas ele sabe que tal relacionamento só produzirá ressentimentos mútuos, não prazer – e que, moralmente, essa troca de valores será como uma troca de presentes de Natal não desejados e não escolhidos que nenhum deles se permite, moralmente, comprar para si mesmo” (VE, pp.15-16).

“Se você se pergunta quais são as razões por trás da feia mistura de cinismo e culpa na qual a maioria dos homens desperdiça suas vidas, estas são as razões: cinismo, porque eles não praticam nem aceitam a moralidade altruísta – culpa, porque eles não se atreveram a rejeita-la” (VE, p.17).

A Alternativa: A Moralidade Egoísta (O Egoísmo como Virtude):

A primeira questão que se levanta em relação a um código de valores diz respeito à razão pela qual seres humanos precisam de um código de valores  (VE, pp.20-21).

“Dado que a natureza não provê o homem com uma forma automática de sobrevivência. . . . ele tem de sustentar sua vida através do seu próprio esforço . . .”. (p.16). O homem precisa agir para manter sua vida. Se não o fizer, morre, deixa de existir. A vida só é mantida através de um processo de ação que a gera e sustenta. O homem é, portanto, diariamente confrontado com a mais genuína de todas as decisões: a de continuar vivendo ou perecer, a da existência e da não-existência. É por isso que precisa de um código de valores para orientar suas escolhas, decisões e ações.

O valor supremo do homem é, portanto, sua própria vida. Sem ela não há nenhum outro valor. Tudo o mais que tem valor para o homem tem valor intermediário, derivativo. O valor supremo, o fim em si mesmo, é a manutenção da vida, porque sem ela nada mais existe para ele, nada mais pode lhe ter valor. A vida é, portanto, o padrão de valor: aquilo que contribui (como meio) para sua manutenção, tem valor (intermediário, subsidiário).

A vida do homem (como a de qualquer outro organismo) depende, do ponto de vista material, de haver suficiente combustível (alimentação) para que ele sobreviva, mas depende, também, do ponto de vista do organismo, de ele tomar as ações necessárias para se apropriar desse combustível e fazer dele uso apropriado.

Em relação a muitos organismos, esse processo é mais ou menos automático: as ações necessárias para se apropriarem do combustível necessário à manutenção de sua vida são tomadas de maneira instintiva, mais ou menos automática. No caso de seres humanos, porém, esse automatismo não existe. “Um instinto de auto-preservação é precisamente o que o homem não possui. Um ‘instinto’ é uma forma inerrante e automática de conhecimento” (FNI, p.121). “O homem nasce nu e desarmado, sem presas, garras, chifres ou conhecimento ‘instintivo’”( “The Anti-Industrial Revolution”, in NL, p.136). O homem não toma, automática ou instintivamente, as ações necessárias para sobreviver: ele tem que escolher como agir, ele tem que conscientemente decidir. Se não fizer isso, morre. O homem, para sobreviver, tem que conscientemente decidir quais ações tomar para sobreviver.

Por causa disso, porque o homem precisa conscientemente decidir como agir para poder sobreviver, ele precisa de um código de valores para orientá-lo em suas decisões. O homem tem de escolher um padrão de valor. A escolha racional aponta na direção de um padrão e um código de valores que geram e sustentam sua vida. Uma escolha irracional o leva a um código de valores que impede ou mesmo destrói a vida. “Tudo o que é próprio à vida de um ser racional é o bem; tudo aquilo que a destrói é o mal” (FNI, p.122).

O homem pode, portanto, decidir não escolher o padrão objetivo: a vida. Nesse caso, suas ações levarão (eventualmente) à sua destruição. “Vida ou morte é a única alternativa fundamental do homem. Viver é seu ato básico de escolha. Se ele escolhe viver, uma ética racional lhe dirá que princípios de ação são necessários para implementar sua escolha. Se ele não escolhe viver, a natureza se encarrega” (“Causality versus Duty”, in PWNI, p.99).

Uma ética racional é, necessariamente, uma ética egoísta.

A Ética e a Razão:

Por que é que se qualifica a ética necessária para a promoção da vida do ser humano uma ética racional?

Porque, para que possa elaborar um código de conduta, uma ética, o homem precisa conhecer a natureza do mundo que o cerca, a sua própria natureza e a natureza de seus meios de cognição: isto é, ele precisa responder às questões colocadas pela metafísica e pela epistemologia, pois doutra forma não poderá saber o que fazer (Cf. Ayn Rand, “Philosophy: Who Needs It?”, in PWNI, p.3).

O instrumento de cognição do homem é sua razão: é através dela que ele integra os elementos da percepção e assim vem a conhecer o mundo que o cerca. Isso significa que a ética não está fundamentada, como acreditam muitos filósofos, no sentimento, nas emoções, na intuição, na fé, nos costumes sociais, tampouco na noção de utilidade ou de dever. Ela está fundamentada na razão.

Isso significa, além do mais, que a moralidade não é algo imposto sobre o homem porque ele vive em sociedade: “Vocês alardeiam que a moralidade é social, e que o homem não precisaria da moralidade em uma ilha deserta. É numa ilha deserta que ele mais precisaria dela! Deixe que ele pretenda, em um tal lugar, quando não há nenhuma vítima que ele possa espoliar, que rocha é casa, que areia é vestimenta, que alimento vai cair em sua boca sem causa e esforço, que ele vai ter uma colheita amanhã devorando seu estoque de sementes hoje — e a realidade o varrerá da face da terra, como ele merece. A realidade lhe mostrará que a vida é um valor a ser comprado, e que o pensamento é a única moeda suficientemente nobre para adquiri-lo” (FNI, p.127).

O Bem Objetivo:

“Há, em essência, três escolas de pensamento sobre o natureza do bem, a saber, as que veem o bem como, respectivamente, intrínseco, subjetivo, e objetivo. A teoria do  bem intrínseco mantém que o bem é inerente a certas coisas ou ações, enquanto tais, irrespectivamente de seu contexto e de suas consequências, independentemente do benefício ou injúria que possam causar aos atores e sujeitos envolvidos. … A teoria do bem subjetivo mantém que o bem não tem relação com os fatos da realidade, que ele é o produto da consciência do homem, criado por seus sentimentos, desejos, ‘intuições’, caprichos … A primeira dessas duas teorias mantém que o bem reside em alguma forma da realidade, independente da consciência do homem; a segunda, que o bem reside na consciência do homem, independente da realidade. A teoria do bem objetivo, por sua vez, mantém que o bem não é nem um atributo das ‘coisas em si mesmas’ nem dos estados emocionais do homem, mas uma avaliação dos fatos da realidade segundo um padrão racional de valor. (Racional, neste contexto, quer dizer: derivado dos fatos da realidade e validado por um processo de razão). A teoria objetiva mantém que o bem é um aspecto da realidade em relação ao homem — e o bem tem que ser descoberto, não inventado, pelo homem” (“What is Capitalism?”, in CUI).

VE = A Virtude do Egoísmo, tradução brasileira de The Virtue of Selfishness

PWNI = Philosophy Who Needs It?

FNI = For the New Intellectual

PB = Playboy Interview

NL = The New Left: The Anti-Industrial Revolution

CUI = Capitalism, the Unknown Ideal

Eduardo Chaves
Campinas, Agosto de 1997

Transcrito em São Paulo, 10 de Junho de 2016

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