Discurso de Ayn Rand: “Filosofia: Quem é que precisa disso?”

(Discurso para a turma de formandos da Academia Militar de West Point, Estados Unidos, em 6 de março de 1974)

[Nota do Tradutor: Este magnífico discurso de Ayn Rand está transcrito como Capítulo 1 de seu livro Philosophy: Who Needs It?, publicado, com uma Introdução de Leonard Peikoff, em 1982, ano da morte de Ayn Rand, como Volume 1 da coleção The Ayn Rand Library, na série “Signet”, da New American Library, Nova York. Desfrutem uma das mais impressionantes peças de eloquência filosófica de que se tem conhecimento na História da Filosofia.]

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Já que sou escritora de ficção, vou começar com uma breve história. Suponhamos que você seja um astronauta cuja nave espacial fica fora de seu controle e cai em um planeta desconhecido. Quando você recupera a consciência e descobre que não está gravemente ferido, as primeiras três perguntas em sua mente seriam: Onde estou? Como posso descobrir? O que devo fazer?

Você vê vegetação desconhecida do lado de fora e percebe que existe ar para respirar. A luz do sol parece mais pálida do que você se lembra e também mais fria. Você se vira para olhar para os céus – mas para. Você é acometido por uma sensação súbita: se não olhar, não terá de saber que talvez esteja longe demais da Terra e que possivelmente não seja possível retornar. Enquanto você não souber disso, estará livre para acreditar no que quiser. Com esse pensamento você experimenta uma vaga e agradável sensação de esperança – mas ele também lhe traz um certo sentimento de culpa.

Você olha para seus instrumentos. Pode ser que estejam danificados – e, se estiverem, você não conhece a extensão dos danos. Mas você novamente para – vencido por um sentimento repentino de temor. Como você pode confiar nesses instrumentos? Como você pode ter certeza de que eles não vão engana-lo? Como você pode saber se eles funcionarão em um mundo diferente? Então, você se afasta dos instrumentos e decide não examina-los.

Agora, você começa a se perguntar por que lhe falta desejo de fazer algo. Parece tão mais seguro esperar que, de alguma forma, algo aconteça. É melhor, você diz a si mesmo, não balançar a espaçonave. Bem distante, você avista algo que se parece com seres vivos se aproximando. Você não sabe se são de fato seres humanos, mas certamente andam com suas duas pernas. Você decide que eles certamente lhe dirão o que fazer.

Nunca mais se tem notícia sua.

Você diz que isto é uma fantasia? Você nunca faria as coisas dessa forma e muito menos astronauta algum o faria? Talvez não. Contudo, essa é a maneira como vivem muitos homens aqui na Terra.

O homem atual passa seus dias, em sua maioria, lutando para fugir de três perguntas cujas respostas permeiam cada pensamento e cada sentimento seu, cada ação que ele realiza, quer ele esteja consciente do fato ou não: Onde estou? Como é que eu sei? O que devo fazer?

Ao atingir a maturidade que lhe permite entender essas perguntas, o homem acredita saber-lhes as respostas. Onde estou? Digamos que em Nova York. Como é que eu sei? É evidente. O que devo fazer? Neste caso, os homens não estão tão certos, mas a resposta mais comum é: o que qualquer um faz. O único problema parece ser que eles não são muito ativos, nem muito confiantes, não estão muito felizes e, por vezes, sentem um temor sem causa aparente e um sentimento vago de culpa, que podem não saber explicar mas dos quais também não conseguem se livrar.

Eles nunca descobriram que, de fato, o problema decorre das três perguntas não respondidas e do fato de que há apenas uma disciplina que pode ajudar a respondê-las: a Filosofia.

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A Filosofia estuda a natureza fundamental da existência, do homem e do relacionamento entre o homem e a existência. Diferente das ciências especiais que lidam apenas com aspectos particulares, a filosofia lida com os aspectos do universo pertinentes a tudo que existe. Na esfera da cognição, as ciências especiais são as árvores, mas a filosofia é o solo que torna possível a existência da floresta.

A filosofia não lhe diria, por exemplo, se você está em Nova York ou em Zanzibar, embora lhe forneça meios para descobrir isto. Mas eis aqui o tipo de coisa que ela lhe diria: você está em um universo regido por leis naturais e que, portanto, é estável, sólido, absoluto e conhecível? Ou você está em um caos incompreensível, num domínio em que acontecem milagres inexplicáveis, num fluxo de acontecimentos imprevisível e desconhecido que sua mente é incapaz de assimilar? As coisas que você vê ao seu redor são elas reais ou apenas ilusões? Elas existem independentemente da presença do observador ou são criadas pelo observador? São elas o objeto ou o sujeito da consciência do homem? Elas são o que são ou podem ser mudadas por um mero ato de sua consciência tal como, por exemplo, um desejo seu?

A natureza dos seus atos e das suas ambições será diferente de acordo com as respostas você vier a dar a essas perguntas. Essas respostas constituem o território de um ramo básico da filosofia que é chamado de metafísica. A metafísica é o estudo da existência tal qual ela é, ou, para usar as palavras de Aristóteles, o estudo do “ser enquanto ser” – o ramo mais básico da filosofia.

Não importa quais sejam as conclusões a que você chegue, você será confrontado pela necessidade de responder uma outra pergunta, que é um corolário da primeira: Como é que eu sei? Já que o homem não é onisciente nem infalível, você precisa descobrir o que você pode reivindicar como conhecimento e como você consegue provar que as conclusões a que chega são válidas. O homem adquire o conhecimento através de um processo racional ou por uma súbita revelação por parte de um poder sobrenatural? A razão é uma faculdade que identifica e integra o material fornecido pelos sentidos do homem ou é alimentada por ideias inatas, implantadas na mente do homem antes do seu nascimento? A razão é competente para perceber a realidade ou o homem possui outras faculdades cognitivas que são superiores à razão? Pode o homem atingir a certeza ou ele está condenado à dúvida perpétua?

A extensão da sua autoconfiança e do seu sucesso será diferente de acordo com as respostas que você vier a dar a essas perguntas. Essas respostas constituem-se o território de um segundo ramo da filosofia, que é chamado de epistemologia: o estudo dos meios de cognição do homem.

Esses dois ramos, a metafísica e a epistemologia, formam a base teórica da filosofia. O terceiro ramo, a ética, pode ser visto como a tecnologia da filosofia. A ética não se aplica a tudo que existe, mas somente ao homem. Mas ela se aplica a cada aspecto da vida do homem: seu caráter, suas ações, seus valores, seu relacionamento com tudo que existe. A ética, também chamada de moralidade, define o código de valores que guia o homem em suas escolhas e ações. Essas escolhas e ações determinam o curso de sua vida.

Tal como o astronauta da minha história que não sabia o que fazer por recusar-se a tomar conhecimento de onde estava e parecia não se interessar por descobrir em que lugar se encontrava, você não saberá o que fazer até que tome conhecimento da natureza do universo com qual você lida, da natureza dos seus meios de cognição e da sua própria natureza. Antes de chegar à ética, você terá de responder às perguntas feitas pela metafísica e pela epistemologia: o homem é um ser racional capaz de lidar com a realidade ou ele é um ser mal adaptado, desesperadamente cego, um fragmento polido pelo fluxo universal das coisas? A realização e a satisfação são coisas acessíveis ao homem na Terra ou ele está condenado ao fracasso e à desgraça? Dependendo das respostas, você pode prosseguir para contemplar as questões postas pela ética: o que é bom ou mau para o homem e por quê? A preocupação primária do homem deve ser a busca da felicidade ou o escapar do sofrimento? O homem deve ter como objetivo de vida a sua realização pessoal ou a sua autodestruição? O homem deve ir atrás de seus valores e interesses ou colocar os interesses dos outros acima de seus próprios? O homem deve buscar a felicidade ou a abnegação?

É desnecessário ressaltar as diferentes consequências das diversas respostas que podem ser dadas a esses conjuntos de perguntas. Você pode ver essas consequências em toda parte, dentro de você mesmo e ao seu redor.

As respostas dadas às questões da ética determinam como o homem deve tratar seu semelhante e essa questão caracteriza o quarto ramo da filosofia, que define os princípios de um sistema social adequado: a política. Como um exemplo da função da filosofia, a filosofia política não determina a ração de combustível que lhe será fornecida, nem em qual dia da semana ela estará disponível. A política lhe dirá, em vez disso, se o Governo tem o direito de impor racionamento de qualquer produto que seja.

O quinto e último ramo da filosofia é a estética. A estética é o estudo da arte e é baseada na metafísica, na epistemologia e na ética. A arte lida com as necessidades, com o reabastecimento, da consciência do homem.

Bem, alguns de vocês podem dizer, assim como outras pessoas o fazem: “Eu jamais penso em termos tão abstratos. Quero lidar com problemas concretos e específicos da vida real. Para que preciso de filosofia?”

Minha resposta é: para que você possa ser capaz de lidar com os problemas concretos e específicos da vida real, como, por exemplo, ser capaz de viver aqui na Terra.

Você pode dizer, como muitas pessoas o fazem, que a filosofia nunca o influenciou. Vou pedir que você avalie essa afirmação. Se você alguma vez já disse ou pensou o seguinte: “Não esteja tão certo disto – ninguém pode ter certeza de coisa alguma”, você obteve essa impressão de David Hume e muitos outros filósofos, embora você possa nunca ter ouvido falar deles. Ou talvez: “Isto pode ser bom na teoria, mas nunca funciona na prática”. Você adquiriu esse ponto de vista de Platão. Ou talvez: “Foi uma coisa lamentável o que se fez, mas é humano: ninguém é perfeito neste mundo”. Você herdou essa opinião de Agostinho.

Mais exemplos:

“Isso pode ser verdade para você, mas não para mim”. Você obteve essa idéia de William James. Ou: “Não pude evitar: ninguém consegue impedir o que quer que ele faça”. Você obteve isso de Hegel. Ou talvez: “Não posso provar isto, mas eu sinto que é verdade”. Você obteve essa tese de Kant.

Outros exemplos:

“Isto pode ser lógico, mas a lógica não tem nada a ver com a realidade”. Mais uma vez você adquiriu isso de Kant. Ainda: “Isto é mau porque é egoísta”. Mais uma vez, Kant. Você já ouviu os ativistas modernos dizerem: “Aja primeiro e pense depois?” Eles aprenderam isso com John Dewey.

Algumas pessoas podem responder: “Claro, já disse essas frases em diferentes ocasiões, mas não tenho de acreditar nelas o tempo todo – elas podem ter sido verdadeiras ou feito sentido ontem, mas hoje, não mais”. Essas pessoas terão obtido essa idéia de Hegel. Elas podem dizer: “A consistência é o duende das pequenas mentes”. Elas pegaram essa frase de uma pequena mente chamada Emerson. Elas podem perguntar: “Mas ninguém pode mais fazer compromissos e tomar ideias emprestadas de diferentes filosofias, de acordo com as conveniências do momento?” Elas terão obtido essa idéia de Richard Nixon, que, por sua vez, a obteve de William James.

Bem, agora pergunte a si mesmo: se você não está interessado em ideias abstratas, por que você (e todos os outros homens) sente-se compelido a fazer uso delas? O fato é que as ideias abstratas são integrações conceituais que abrangem um número incalculável de coisas concretas. Sem ideias abstratas, você seria incapaz de lidar com os problemas concretos e específicos da vida real. Você estaria na posição de um recém-nascido para quem cada objeto é um fenômeno único e sem precedentes. A diferença entre o estado mental dele e o seu reside no numero de integrações conceituais que a sua mente já realizou.

Você não tem escolha alguma sobre a necessidade de integrar suas observações, suas experiências, seu conhecimento em ideias abstratas, como, por exemplo, em princípios. Sua única escolha é se esses princípios são verdadeiros ou falsos, se eles representam sua consciência e suas convicções racionais ou se são um saco de noções tomadas ao acaso, cujas origem, validade, contexto e consequências você desconhece – noções que, mais frequentemente do que não, você deixaria cair como uma batata quente se soubesse.

Mas os princípios que você aceita, consciente ou inconscientemente, podem entrar em conflito ou contradizer um ao outro. Eles também têm de ser integrados. Quem os integra? A filosofia. Um sistema filosófico é uma visão integrada da existência. Como ser humano, você não tem escolha com relação ao fato de precisar de uma filosofia. A única escolha é a de definir sua filosofia por um processo de pensamento consciente, racional e disciplinado e uma deliberação escrupulosamente lógica ou, então, deixar seu subconsciente acumular o entulho resultante de conclusões injustificadas, generalizações falsas, contradições indefinidas, slogans indigestos, desejos não identificados, dúvidas e temores, juntados ao acaso, mas integrados pelo seu subconsciente numa espécie de filosofia vira-lata e fundida em um peso sólido único: a dúvida de si mesmo, que o prende, tal qual uma bola de ferro com correntes, no lugar onde as asas da sua mente deveriam ter crescido.

Talvez você diga, tal como o fazem muitas pessoas, que nem sempre é fácil agir por princípios abstratos. Não, não é fácil. Mas quão mais difícil deve ser agir por eles sem saber quais eles são?

Seu subconsciente é como um computador, mais complexo do que qualquer um que o homem possa criar, que tem como função principal a integração de suas ideias. Quem o programa? Sua mente consciente. Se você se omitir, se não alcançar alguma convicção sólida, seu subconsciente será programado ao acaso e você será subjugado pelo poder de ideias que você nem mesmo está consciente de ter aceito. Contudo, de uma forma ou de outra, seu computador lhe fornece relatórios diários, ou mesmo a cada hora, na forma de emoções, que são estimativas relâmpago das coisas que o cercam, calculadas de acordo com seus valores. Se você programou seu computador através do seu pensamento consciente, você conhece a natureza de seus valores e de suas emoções. Se você não o fez, você não os conhecerá.

Muitas pessoas, principalmente hoje, afirmam que o homem não pode viver apenas pela lógica: que é preciso levar em conta também o elemento emocional da sua natureza. Acrescentam que o homem deve se deixar levar pelas suas emoções e confiar naquilo que elas lhe dizem. Bem, o astronauta da nossa história também fez isso – e a piada foi em cima dele. As emoções e os valores de um homem são determinados pela sua visão fundamental da vida. O programador supremo de seu subconsciente é a filosofia: atividade que, de acordo com os emocionalistas, é impotente para afetar e penetrar os mistérios obscuros de seus sentimentos.

A qualidade do produto final do computador é determinada pela qualidade dos dados com os quais o computador foi alimentado. Se o seu subconsciente for programado ao acaso, o resultado final irá refletir isso. Você provavelmente já deve ter escutado o termo inventado pelos eloquentes profissionais da área de processamento de dados: “GIGO”, que significa “entra lixo, sai lixo” (Garbage In, Garbage Out). A mesma fórmula aplica-se ao relacionamento entre o pensamento do homem e suas emoções.

Um homem que é controlado pelas emoções é como um homem que é controlado por um computador cujo produto final impresso ele não consegue ler. O homem então não sabe se a programação é verdadeira ou falsa, correta ou incorreta, se serve para conduzi-lo ao sucesso ou ao fracasso, se serve a seus objetivos ou aos objetivos de um poder desconhecido e malévolo. Ele é cego duas vezes: cego para o mundo que o cerca e cego para o seu próprio mundo interno, sendo incapaz de entender a realidade ou até mesmo seus motivos próprios, vivendo com medo crônico dos dois. As emoções não são instrumentos de cognição. Os homens que não estão interessados na filosofia são os que mais necessitam dela, pois se encontram indefesos, presas fáceis do seu poder.

Os homens que não estão interessados em filosofia absorvem seus princípios da atmosfera cultural que os cerca: escolas, faculdades, livros, revistas, jornais, filmes, televisão, etc. Quem estabelece a tendência da cultura? Um punhado de homens: os filósofos. Os demais seguem a liderança deles, por convicção ou omissão. Por cerca de 200 anos, sob a influência de Emanuel Kant, a tendência dominante da filosofia tem sido dirigida com destino a um único objetivo: a destruição da mente do homem, de sua confiança no poder da razão. Hoje registramos o apogeu dessa tendência.

Quando os homens abandonam a razão, eles não só descobrem que suas emoções são incapazes de guia-los, mas também que eles se tornam presas de uma única emoção: o terror.

A disseminação da adição às drogas entre os jovens, trazida à tona pelos modismos intelectuais de hoje, demonstra o estado interno insustentável do homem que é despojado de seus meios de cognição e que procura escapar da realidade, do medo de sua impotência em lidar com a existência. Observem o medo de independência desses jovens e seu desejo frenético de pertencer ou de se ligar a um grupo, bando ou gangue. A maioria deles nunca ouviu falar de filosofia. No entanto, eles sentem que necessitam de algumas respostas fundamentais para as perguntas que não se atrevem a fazer e esperam que a tribo lhes diga como viver. Eles estão prontos para serem influenciados por qualquer curandeiro, guru ou ditador. Uma das coisas mais perigosas que o homem pode fazer é entregar sua autonomia moral aos outros – tal como o astronauta em minha história, que não sabia se aqueles seres eram humanos, embora caminhassem com duas pernas.

Bem, você pode me perguntar: se a filosofia pode causar tanto mal, por que devemos estuda-la? Particularmente, por que alguém deve estudar teorias filosóficas que são claramente falsas, que não fazem sentido algum e que não possuem relação alguma com a vida real?

Minha resposta é: em autodefesa e em defesa da verdade, da justiça, da liberdade e de qualquer outro valor que você possa abraçar ou venha um dia a fazê-lo.

Nem todas as filosofias são más, embora muitas delas o sejam, especialmente na história moderna. Por outro lado, na raiz de cada conquista civilizada, tal como a ciência, a tecnologia, o progresso, a liberdade, na raiz de cada valor de que usufruímos hoje, incluindo o nascimento de nossa nação, você encontrará as conquistas de um homem que viveu há mais de dois mil anos: Aristóteles.

Se tudo o que você sente é tédio quando lê as teorias virtualmente ininteligíveis de alguns filósofos, eu entendo isto completamente. Contudo, se você as despreza dizendo “Por que deveria estudar essas coisas já que eu sei que não fazem sentido algum?”, você está enganado. A teoria é uma asneira, mas você não sabe disto — não enquanto você aceitar todas as suas conclusões, todas as “pegadinhas” contidas nas frases maliciosas desses filósofos sem conseguir refutá-las.

Essas asneiras lidam com a coisa mais crucial, com os assuntos de vida ou morte relacionados à existência do homem. Na raiz de cada teoria filosófica significativa há uma questão legítima, uma necessidade autêntica da consciência do homem, que algumas teorias lutam para elucidar e outras lutam para ofuscar, corromper e impedir o homem de descobrir. A batalha dos filósofos é uma batalha para conquistar a mente do homem. Se você não entender as teorias deles, você estará vulnerável aos piores dentre eles.

A melhor maneira de estudar a filosofia é aborda-la tal como abordamos uma história de detetive: seguir cada trilha, pista e implicação para descobrir quem é o assassino e quem é o herói. O critério de detecção consiste em duas perguntas: Por quê? E, como? Se um principio parece ser verdadeiro ou falso, perguntamos “Por quê?” e “Como foi estabelecido?” Você não encontrará todas as respostas imediatamente, mas você adquirirá uma característica inestimável: a habilidade de pensar em termos do essencial.

Nada é dado ao homem automaticamente: nem conhecimento, nem autoconfiança, nem paz interior, nem a maneira certa de usar a sua mente. Cada valor de que ele necessita ou que ele deseja, tem de ser descoberto, aprendido e adquirido, até mesmo a postura de seu corpo. Neste contexto, tenho de dizer que sempre admirei a postura dos formandos da Academia de West Point, postura essa que reflete o orgulho do homem, o controle disciplinado de seu corpo. Bem, o treinamento filosófico concede ao homem a postura intelectual adequada, uma postura orgulhosa de controle disciplinado de sua mente.

Na sua própria profissão, na ciência militar, você sabe da importância de acompanhar o armamento do inimigo, suas estratégias e tácticas, e estar preparado para o contra-ataque. O mesmo se pode dizer da filosofia. Você precisa compreender as ideias do inimigo, estar preparado para rebatê-las, conhecer seus argumentos básicos e ser capaz de destruí-los.

Num combate físico, você não envia seus homens para uma armadilha de amadores, mas faz todo o possível para descobrir sua localização. Bem, o sistema de Kant é a maior e mais intrincada armadilha amadora na história da filosofia – mas é repleta de falhas e uma vez que você aprenda as suas manhas, você consegue desativá-la sem problema algum e caminhar por sobre ela tranquilamente. E, uma vez que você a desative, os “kantianos” menores – que são as fileiras inferiores do exército de Kant, que incluem sargentos filosóficos, soldados rasos e mercenários – cairão pela sua própria leveza, numa reação em cadeia.

Há uma razão especial pela qual vocês, futuros líderes do exército dos EUA, precisam armar-se filosoficamente. Vocês são os alvos de um ataque especial do estabelecimento kantiano-hegeliano-coletivista que domina nossas instituições culturais no presente. Vocês são o exército do último país parcialmente livre na Terra e ainda assim, vocês são acusados de serem um instrumento do imperialismo –  imperialismo é o nome dado à política externa do nosso país, que jamais se engajou em conquistas militares e que nunca lucrou com as duas guerras mundiais, que não iniciou, mas em que entrou e que venceu. (Foi, incidentalmente, uma tola política excessivamente generosa que fez com que este país desperdiçasse suas riquezas para ajudar tanto seus aliados como seus ex-inimigos.) Algo chamado de “complexo industrial militar” – que é um mito, ou ainda pior – está sendo considerado culpado por todos os problemas deste país. Arruaceiros universitários gritam em protesto para que os postos do Campo de Treinamento dos Oficiais da Reserva sejam banidos dos campi universitários. Nosso orçamento destinado à defesa está sob ataque, sofrendo denúncias e cortes de verbas por pessoas que exigem que seja dada prioridade financeira a canteiros ecológicos de rosas e aulas de expressão estética para residentes de favelas.

Alguns de vocês podem estar confusos com essas campanhas e podem estar se perguntando, de boa fé, o que vocês fizeram de errado para merecerem isso. Se este for o caso, é de uma importância urgente que vocês compreendam a natureza do inimigo. Vocês estão sob ataque não pelos seus erros e contradições, mas por suas virtudes. Vocês estão sendo acusados não por suas fraquezas, mas sim pela sua força e competência. Vocês estão sendo punidos por serem os protetores dos EUA. Num nível inferior dentro deste mesmo assunto, uma campanha semelhante está sendo movida contra a força policial. Aqueles que buscam destruir este país, buscam desarmá-lo intelectual e fisicamente. Contudo, este não é um assunto meramente político. A política não é a causa, mas a consequência das ideias filosóficas. Não é nada de conspiração comunista, embora alguns comunistas possam estar envolvidos, como parasitas que se aproveitam de um desastre que não têm força para provocar. O motivo desses destruidores não é o amor pelo comunismo, mas sim o ódio pela América. Por que o ódio? Porque a América é a evidência viva da recusa ao universo kantiano.

Hoje em dia, a preocupação melosa e a compaixão com o fraco, o deficiente, o oprimido e o culpado não passam de um disfarce para o ódio kantiano profundo pelo inocente, pelo forte, pelo capaz, pelo próspero, pelo virtuoso, pelo confiante e pelo feliz. Uma filosofia que existe para destruir a mente humana é necessariamente uma filosofia de ódio pelo homem, pela vida do homem e por cada valor humano. O destaque do século XX é o ódio ao bom exatamente por ele ser bom. Este é o inimigo que vocês enfrentam.

Uma batalha como esta requer armas especiais. Precisa ser combatida com um entendimento pleno de sua causa e com autoconfiança, tendo a certeza da retidão moral de ambos. Somente a filosofia é capaz de fornecer essas armas.

A minha tarefa esta noite não é lhes vender a minha filosofia, mas sim convencê-los da importância da filosofia tal como ela é. Contudo, eu falei implicitamente de minha filosofia em cada uma de minhas sentenças, uma vez que nenhum de nós e nenhuma declaração podem escapar das premissas filosóficas. Qual é o meu interesse egoísta neste assunto? Estou certa o bastante para acreditar que se vocês aceitarem a importância da filosofia e a tarefa de examina-la criticamente, será a minha filosofia que vocês vão acabar aceitando. Formalmente, eu a chamo de Objetivismo, mas informalmente eu a chamo de filosofia para viver sobre a Terra. Vocês encontrarão uma explicação explícita dela em meus livros, particularmente no livro Atlas Shrugged [A Revolta de Atlas].

Concluindo, permitam-me falar em termos mais pessoais. Esta noite significou muito para mim. Sinto-me imensamente honrada pela oportunidade de me dirigir a vocês. Posso dizer, não como vedete patriótica, mas com o pleno conhecimento de suas raízes metafísicas, epistemológicas, éticas, políticas e estéticas, que os EUA é o maior, o mais nobre e, nos seus princípios fundamentais originais, o único país moral na história do mundo. Há uma espécie de fulgor silencioso em minha mente associado ao nome West Point. Vocês têm conseguido preservar o espírito daqueles princípios fundamentais e vocês os simbolizam. Houve omissões e contradições naqueles princípios e pode haver em vocês também. Contudo, eu falo dos elementos essenciais. Pode ter havido indivíduos em sua história que não viveram pelos mais altos padrões, como acontece em todas as instituições, já que nenhuma instituição e nenhum sistema social pode garantir a perfeição automática de todos os seus membros. Esse fator é dependente do livre arbítrio. Eu falo de seus padrões. Vocês preservaram três qualidades de caráter que eram típicas na época do nascimento dos EUA, porém são quase inexistentes hoje: zelo, dedicação e senso de honra. A honra é a autoestima que se torna visível pela ação.

Vocês escolheram arriscar as suas vidas em defesa deste país. Não insultarei vocês dizendo que vocês são dedicados a um serviço altruísta. Altruísmo não é uma virtude em minha moralidade. Em minha moralidade, a defesa da pátria significa que o homem, como individuo, não deseja viver como escravo conquistado pelo inimigo, quer seja ele externo ou interno. Essa é uma grande virtude. Pode ser que alguns de vocês não estejam cientes disso, no plano do consciente. Desejo ajudá-los a perceber esse fato.

O exército de um país livre tem uma grande responsabilidade – o direito ao uso da força. O uso da força não como instrumento de compulsão ou conquista bruta, como os exércitos de outros países já fizeram em suas histórias, mas somente como um instrumento de autodefesa de uma nação livre, isto é, na defesa dos direitos individuais do homem. O princípio do uso da força somente em retaliação contra aqueles que iniciaram seu uso é o princípio de subordinar a força ao direito. Para uma tarefa dessas são necessários a mais alta integridade e o mais elevado senso de honra. Nenhum outro exército no mundo alcançou isso. Vocês, sim.

A Academia de West Point tem dado aos EUA uma longa linhagem de heróis, conhecidos e desconhecidos. Vocês, formandos deste ano, têm uma gloriosa tradição, à qual devem dar continuidade. Eu admiro profundamente essa gloriosa tradição. Não por causa da tradição, mas pela glória.

Já que eu vim de um país culpado da pior tirania sobre a face da Terra, sou capaz de apreciar o significado, a grandeza e o valor supremo do que vocês defendem. Por isso, em meu nome e em nome de muitas pessoas que pensam como eu, quero lhes dizer, a todos os homens de West Point, do passado, presente e futuro: Muito obrigada.

[Tradução para o Português de Eduardo Chaves, feita em 10 de Fevereiro de 2003, mais de treze anos atrás]

Transcrito aqui em Salto, 9 de Junho de 2016

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