Ayn Rand: Um Legado de Razão e Liberdade (Michael S. Berliner)

[Este belo artigo foi escrito por Michael S. Berliner, qualificado ao final, e traduzido por mim, Eduardo Chaves, em 25 de Janeiro de 2005. Ele foi escrito para celebrar o Centenário do Nascimento de Ayn Rand, que aconteceu em 2 de Fevereiro de 2005].

 Nascida há 100 anos na Rússia e educada sob os Sovietes, Ayn Rand se tornou, de todos os escritores e filósofos do século XX, aquele que representa a quintessência da visão americana da vida, que atribui valor supremo ao indivíduo que se esforça para viver a sua vida aqui na Terra. Ela mesma viveu uma vida que foi “de trapos a riquezas”. Escreveu romances que até hoje ocupam as listas de mais vendidos e que defendem o individualismo, e desenvolveu uma filosofia da razão que valida o espírito americano de realização e independência.

A história da vida de Ayn Rand é, nas palavras do documentário, indicado para o Oscar, Ayn Rand: A Sense of Life, “uma vida mais impressionante que ficção”. Nascida no dia 2 de Fevereiro de 1905, ela começou a escrever ficção quando tinha oito anos de idade – ocasião em que também mostrou sinais de ser uma precoce ativista intelectual, propondo-se na ocasião a refutar a tese defendida em um artigo de jornal de que a escola era a única fonte dos ideais de uma criança. Um ano depois ela decidiu se tornar uma escritora profissional, inspirada pelo herói de uma história de crianças que incorporava o ideal da “inteligência dedicada a propósitos práticos”. Naquele momento ela tomou a decisão de olhar as pessoas, não como elas eram, mas como elas podiam vir a ser.

No ensino médio e na universidade ela descobriu duas pessoas que nunca cessou de admirar: Victor Hugo, pela “grandiosidade, pela dimensão heroica, pela inventividade do enredo”, e Aristóteles, “o maior de todos os realistas e o grande advogado da validade da mente humana”.

Escapando a tirania e a pobreza da URSS ela partiu para os Estados Unidos em 1926, oficialmente para fazer uma breve visita a parentes. Um encontro por acaso com o seu diretor de cinema favorito, Cecil B. De Mille, acabou lhe dando alguns empregos como extra em filmes e, depois, como roteirista júnior. Depois de períodos em que quase chegou a passar fome, ela vendeu sua primeira peça de teatro para a Broadway e seu primeiro romance, We the Living (Nós os que Vivemos), contextualizado na tirania soviética da qual ela havia escapado.

Com o seu best-seller, The Fountainhead (A Nascente), em 1943, ela apresentou sua visão do homem ideal na pessoa do arquiteto individualista Howard Roark. Esse livro, porém, representa “apenas uma introdução” ao seu opus magnum, Atlas Shrugged (Quem é John Galt?), em 1957 – uma história de mistério sobre o papel da mente na existência humana. Com esse livro ela encerrou sua carreira como autora de ficção e começou a sua carreira de filósofa.

Sua filosofia – Objetivismo – defende: a realidade objetiva (em oposição a tendências sobrenaturalistas), a razão como o único meio de chegar ao conhecimento da realidade (em oposição a tendências céticas), a liberdade (em oposição a tendências deterministas, biológicas ou ambientais), e uma ética de interesse próprio racional (em oposição a tendências altruístas que defendem o sacrifício de nós mesmos para com os outros e dos outros para com nós mesmos). O único sistema político moral, ela sustentou, é o liberalismo laissez-faire [que ela chama de capitalismo] (em oposição às tendências coletivistas do socialismo, fascismo e estado do bem-estar social), porque esse sistema reconhece o direito inalienável de o indivíduo agir com base no julgamento de sua própria mente. Sua vida, ela sustenta, pertence a você, e não ao seu país, a seus próximos, ou a Deus.

Ayn Rand entende que, para defender o indivíduo, ela deve chegar à raiz da questão: a sua necessidade de usar a razão para sobreviver. “Eu não sou, primariamente, uma defensora do capitalismo”, ela escreveu em 1971, “mas do egoísmo; e não sou, primariamente, uma defensora do egoísmo, mas da razão. Para aquele que reconhece a supremacia da razão e a aplica com consistência, todo o resto segue naturalmente”. Esse ponto de vista radical a separou dos conservadores, a quem ela criticou com veemência por tentar basear o capitalismo na fé e no altruísmo. Defendendo a tese de que a função do governo é defender os direitos do indivíduo, inclusive seu direito à propriedade, ela não era uma anarquista ou uma liberal (no sentido americano do termo). Defendendo a indispensabilidade da filosofia, ela não era uma libertária.

Embora ficasse de fora das correntes culturais predominantes, seus romances se tornaram best-sellers e seus livros vendem mais hoje do que antes – cerca de meio milhão de cópias por ano. Há uma razão por que Atlas Shrugged ficou em segundo lugar em uma pesquisa da Biblioteca do Congresso (dos Estados Unidos) sobre os livros mais influentes jamais escritos. E há uma razão porque seus livros são vistos como fatores importantes de mudança de vida por tantos leitores. Ela tinha uma visão exaltada do homem e criava heróis de ficção que verdadeiramente inspiravam e ainda inspiram.

Uma filósofa sui generis, que olhava o mundo de uma forma nova, Ayn Rand foi, por muito tempo, um enigma para o estabelecimento acadêmico. A academia em geral antagonizou seus pontos de vista ou, então, tentou ignora-la, incapaz de entender como ela era individualista mas não subjetivista, absolutista mas não dogmática.

Assim, eles ignoraram suas soluções originais para problemas aparentemente intratáveis, como, por exemplo, como fundamentar valores nos fatos da realidade. Mas mesmo na academia suas ideias estão encontrando maior aceitação. Bolsas (fellowships) para o estudo de sua filosofia têm sido concedidas e a Sociedade Americana de Filosofia criou um grupo para estuda-la.

Ayn Rand nos deixou um legado em defesa da razão e da liberdade que serve de marco orientador que aponta para o espírito americano – algo especialmente pertinente hoje, um período em que a América e aquilo que ela representa têm sido objeto de agressivo ataque.

Michael S. Berliner é membro do Conselho Diretivo do Ayn Rand Institute, localizado em Irvine, CA, EUA. O instituto promove as ideias de Ayn Rand.

Tradução: Eduardo Chaves

Este tributo foi traduzido em 25 de Janeiro de 2005, em preparação do centenário do nascimento de Ayn Rand. Ele está publicado, no original em Inglês, em várias fontes. A mais fácil de pesquisar é Capitalism Magazine, onde foi republicado em 2 de Fevereiro de 2005, dia do centésimo aniversário de Ayn Rand:

 http://capitalismmagazine.com/2005/02/ayn-rand-a-legacy-of-reason-and-freedom/

Transcrito aqui em 9 de Junho de 2016.

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