Site Antigo – Celebração: 100 Anos (2)

Ayn Rand Old Site - 02 - Celebration

Este o texto da segunda página, que era uma Celebração (em Inglês) dos cem anos do nascimento de Ayn Rand em 5/2/2005.

Ayn Rand: Uma Celebração

[100 Anos do Nascimento de Ayn Rand]

Roy A. Childs, Jr.

[Escrito por Roy A. Childs, Jr. (falecido) em Junho de 1986. Publicado no site http://www.laissezfairebooks.com em 29 de Julho de 2000. Republicado neste site, em português, mediante autorização de Laissez-Faire Books. Tradução para o português de Eduardo Chaves]

Quando ela morreu, em Março de 1982, Ayn Rand estava perto de comemorar 40 anos de luta ativa pelos ideais da razão, do individualismo e do liberalismo / capitalismo laissez-faire. Através de seus romances, e, mais tarde, de seus ensaios e de seus livros de não-ficção, ela foi capaz de se comunicar com, literalmente, milhões de leitores ao redor do mundo, e deixou um legado permanente para as gerações futuras. Para leitores, atuais e futuros, faço aqui um breve apanhado a obra única de Ayn Rand.

A Obra de Ficção

Quando Ayn Rand (então ainda Alice Rosenbaum) chegou aos Estados Unidos em meados da década de vinte, ela não sabia quase nada de inglês – e, entretanto, havia decidido que faria sua carreira como romancista.

Seu primeiro romance, We The Living (Nós os que Vivemos), ambientado na Rússia da juventude de Rand, foi publicado 50 anos atrás [1936]. Seu tema é o indivíduo versus o estado. O livro descreve o impacto da Revolução Russa sobre três seres humanos que exigem o direito de viver suas próprias vidas e buscar sua própria felicidade. Para muitos leitores We The Living parece o romance mais íntimo e pessoal de Ayn Rand, e ela observou mais de uma vez que o livro era a coisa mais próxima de uma autobiografia que ela jamais escreveria. [NT: Durante o Fascismo foi feito, clandestinamente, um filme baseado nesse livro, que estrelou Rossano Brazzi].

Rand começou a trabalhar em seu livro The Fountainhead (A Nascente) nos anos finais da década de trinta e o publicou em 1943, depois de ver o manuscrito rejeitado por doze editoras. The Fountainhead é uma defesa apaixonada do individualismo contra as “vidas de segunda mão” vividas pela maioria das pessoas. Este foi o primeiro livro de Rand a ser lido por pessoas em todas as partes do mundo. Ele continua a vender cerca de 100.000 cópias a cada ano, tocando o mais íntimo de cada nova geração.

É impossível fazer justiça ao último romance de Ayn Rand em espaço tão limitado. Atlas Shrugged (Quem é John Galt?) é o opus magnum de Rand, um romance de idéias de tirar o fôlego, que lançou uma ideologia e um movimento.

Não há melhor maneira de apreciar a excitação fantástica que se produziu com a publicação de Atlas Shrugged, as aparições públicas de Ayn Rand e a publicação de sua obra de não ficção, do que analisá-los em contexto. Os anos que se seguiram à publicação de Atlas Shrugged, em 1957, foram anos de fermento intelectual nos Estados Unidos.

Atlas Shrugged foi publicado no final dos Anos Eisenhower, numa época que Daniel Bell veio a designar como a em que se processava “O Fim da Ideologia,” assim indicando que, para ele, o debate sobre “princípios fundamentais” havia chegado ao fim. Pressupunha-se, então, que “progresso” era sinônimo de uma marcha gradual na direção do socialismo, pois o livre mercado, que se acreditava estar batendo em retirada, era visto mais e mais como algo passé.

Mas então chegou Ayn Rand.

Atlas Shrugged atingiu a sociedade americana como uma bomba. Publicado no final de 1957, recebeu resenhas devastadoras dos críticos. Mas o importante é que o livro foi lido, e a excitação dos que o leram ia se espalhando pela cultura à medida que milhares, depois dezenas de milhares, depois centenas de milhares, depois milhões, leram essa obra magna que demonstra a força das idéias. Questões que eram consideradas “resolvidas” foram reabertas para debate. Atlas Shrugged era de tirar o fôlego em seu escopo, mas o que chamava a atenção era o fato de que o livro era uma defesa moral do capitalismo. Robert Hessen colocou a questão de maneira perfeita, para o New York Times, depois da morte de Ayn Rand em 1982:

“Havia muitas defesas do capitalismo contra o socialismo quando Atlas Shrugged apareceu no final dos anos 50, mas elas eram, em sua maioria, ‘economia de banheira’: você sabe, o capitalismo é superior ao socialismo porque é mais eficiente e faz banheiras maiores e melhores do que as feitas na União Soviética. Ayn Rand forneceu uma defesa moral que teve um efeito eletrizante em pessoas que nunca haviam ouvido o capitalismo ser defendido a não ser com base no desenvolvimento tecnológico. Ayn Rand deixou claro que uma sociedade livre é também uma sociedade produtiva, mas que o que importa é a liberdade do indivíduo”.

Atlas Shrugged fez aparecer, instantaneamente, um grupo de seguidores de Ayn Rand – e a colocou, até o fim de sua vida, no epicentro de controvérsia. Ayn Rand começou a falar nos campus universitários e a encher, a ponto de transbordo, os auditórios em que dava suas conferências. Seu programa de rádio e suas aparições na televisão foram objeto de um dilúvio de cartas. Ela era um fenômeno!

Depois de Atlas

Não há melhor maneira de mensurar avaliar sua influência do que ler, depois de A Paixão de Ayn Rand, os três volumes de newsletters que ela publicou nos anos 60 e 70: The Objectivist NewsletterThe Objectivist, e The Ayn Rand Letter.

Depois de Atlas Shrugged Ayn Rand não publicou mais nenhuma obra de ficção. Nem mesmo ela poderia ultrapassar o feito de Atlas. Ela decidiu, a partir daí, a espalhar sua influência de outras formas. Ela começou como romancista e se tornou uma pensadora e filósofa séria, que veio a grangear um grupo significativo de seguidores no mundo inteiro.

Começou em 1958 (ano seguinte ao da publicação de Atlas), quando dois associados de Ayn Rand, Nathaniel e Barbara Branden, resolveram criar o Nathaniel Branden Institute, chamado simplesmente de NBI. Eles davam cursos para aqueles que admiravam a obra de Ayn Rand. O primeiro curso – “The Basic Principles of Objectivism” [Os Princípios Básicos do Objetivismo] – foi dado a um punhado de alunos em New York, mas em poucos anos milhares de pessoas os estavam assistindo ou ouvido em fita (áudio). Ayn Rand começou a fazer conferências em importantes universidades para multidões que extravasavam os limites dos auditórios.

Ayn Rand se tornou a nascente [“fountainhead”] do Objetivismo, nome que ela deu à sua filosofia. Em 1961 ela publicou For the New Intellectual [Para o Novo Intelectual], uma coleção de passagens “filosóficas” de seus quatro romances que teve como introdução um ensaio com o título do livro, que era um desafio apaixonado e controvertido ao status quo intelectual.

Essa primeira coleção foi seguida de seis outras, uma publicada postumamente com introdução de Leonard Peikoff [Philosophy: Who Needs It? (Filosofia: Quem Precisa Dela?), todas elas, em parte, com material transcrito das três newsletters. Analisemos essas newsletters antes de discutir os livros.

Ayn Rand e os seus associados de então, Nathaniel e Barbara Branden, começaram a publicar The Objectivist Newsletter no final de 1961 – o primeiro número saiu, na verdade, em Janeiro de 1962. “Check Your Premises” [Verifique suas Premissas] era a coluna de Ayn Rand; “Choose Your Issues” [Escolha suas Causas] era sua mensagem de abertura. Barbara Branden veio a seguir com uma resenha de uma obra de Ludwig von Mises e Nathaniel Branden deu peso ao número com o primeiro episódio de “Intellectual Ammunition Department” [Departamento de Munição Intelectual]. Finalmente, Allan Greenspan [sim, ele mesmo!] escreveu “The Crisis Over Berlin” [A Crise em Relação a Berlim]. O estilo era urgente e agressivo. Que ninguém se engane, tratava-se de uma batalha intelectual, pois os Objetivistas declararam que o que estava em jogo eram princípios básicos, e que eles não eram conservadores: eram radicais defensores da liberdade e do capitalismo.

E é possível traçar o progresso. O “Objectivist Calendar” [Calendário Objetivista] mensal relatava conferências, livros, artigos, aparições em programas de rádio e de televisão, cursos, e muito mais. Barbara, Nathaniel, e Ayn Rand estavam constantemente diante do público, mas ensaios escritos por outras pessoas começavam a aparecer: Robert e Beatrice Hessen, Edith Efron, Joan Blumenthal e Martin Anderson, por exemplo. Rand se fazia presente todos os meses nas newsletters: criticando veementemente a FCC [Federal Communications Commission] e a legislação antitruste, prestando um tributo carinhoso a Marilyn Monroe, discutindo “Who Is the Final Authority in Ethics” [Quem é a Autoridade Final em Ética], fazendo reflexões sobre a campanha de Goldwater à Presidência, sobre “The Obliteration of Capitalism” [A Obliteração do Capitalismo], “Is Atlas Shrugging” [Está Atlas dando de Ombros?], e muito mais. De igual forma, Nathaniel Branden comentava questões teóricas como “The Stolen Concept” [O Conceito Roubado], “Agnosticism” [Agnosticismo], e outros. Mais tarde a newsletter recebeu um novo formato e um novo nome: The Objectivist. Mas o escopo intelectual permaneceu surpreendente.

Alguns dos ensaios foram reimpressos em suas coleções de ensaios, na forma de livros. Outros ensaios – algumas verdadeiras pérolas – não foram reimpressos, estando disponíveis apenas nos volumes encadernados das newsletters [ainda hoje comercializados].  Colaboradores de Ayn Rand contribuíram para as newsletters análises na área artística, como foi o caso de Kay Nolte Smith sobre Terence Rattigan, Joan Mitchell Blumenthal sobre “Art for Power’s Sake” [Arte por Amor ao Poder], Mary Ann Sures sobre “Metaphysics in Marble” [Metafísica em Mármore]. Robert Efron publicou “Biology Without Consciousness” [Biologia sem Consciência], Allan Blumenthal escreveu sobre psicoterapia, George Reisman publicou “Platonic Competition” [Competição Platônica], o filósofo George Walsh apresentou uma longa crítica do guru da Nova Esquerda, Herbert Marcuse. Ayn Rand escreveu ensaios sobre campanhas políticas, e sobre outros assuntos: “Apollo 11”, “Altruism as Appeasement” [Altruísmo como Tentativa de Pacificação], “Our Cultural Value-Deprivation” [Nossa Privação de Valores Culturais], e muitos mais. Nathaniel Branden escreveu ensaios pioneiros sobre livre arbítrio e determinismo, bem como sobre suas teorias psicológicas. (Mais tarde, alguns desses trabalhos foram publicados, na forma de livro, em The Psychology Of Self Esteem [A Psicologia da Auto-Estima]).

E então aconteceu a ruptura tumultuada. No final de 1968 foi publicado um número de The Objectivist (com data de “Maio”, mas só publicado no final de Setembro), com um sombrio ensaio de abertura: “To Whom It May Concern” [A Quem Possa Interessar]. O ensaio anunciava a decisão de Rand de cortar seus laços com Nathaniel e Barbara Branden. Naquele momento, eles tinham milhares de seguidores e cerca de 25.000 deles leram aquele número, que mostrava uma fratura irreparável dentro do movimento Objetvista. Ayn Rand continuou The Objectivist sozinha ainda durante cerca de três anos.

Então ela lançou The Ayn Rand Letter, que consistia principalmente de comentários sobre eventos correntes. Alguns de seus melhores ensaios estão no volume encadernado desta terceira fase das newsletters: artigos sobre Nixon, McGovern, Watergate, a abertura para com a China, controle de salários e de preços, inflação, as lições de Vietnã, e muitos, muitos outros assuntos.

Finalmente, foi demais. Ela foi operada de câncer no pulmão e recebeu uma visita traumática de sua única irmã viva, Nora. Seu marido, Frank O’Connor, também estava doente, degenerando mental e fisicamente. Tudo isso cobrou o seu pedágio. Houve algumas conferências mais, mas suas forças estavam desaparecendo. Logo haveria apenas silêncio – e um legado.

Ayn Rand partia.

O Legado

O Ayn Rand nos deixou? Inspiração, sabedoria, paixão, e muitas verdades. As pessoas às vezes zombava de sua constante recitação de princípios básicos, mas a verdade é que ninguém o fez melhor do que ela. A sua era uma inteligência ampla e profunda, mas houve momentos em que ela tomava uma posição política, ou histórica, com base em pouco conhecimento de detalhe. Ela não era uma leitora ávida.

Ainda assim, ela foi brilhante, prolífica e freqüentmente estava certa. Se você procura os essenciais de sua filosofia, tome os sete livros de não ficção que ela esceveu e releia as seleções dos discursos de seus romances em For The New Intellectual [Para O Novo Intelectual]. Philosophy: Who Needs It? [Filosofia: Quem Precisa Dela?] contém vários ensaios excelentes. Leia “Faith and Force: The Destroyers of the Modern World” [Fé e Força: Os Destruidores do Mundo Moderno], que não está disponível em nenhum outro local, e os três formidáveis ensaios: “The Metaphysical versus the Man-Made” [O Metafísico versus o Feito pelo Homem], “Kant versus Sullivan” [Kant versus Sullivan] (uma abordagem brilhante à epistemologia), e “Causality versus Duty” [Causalidade versus Dever]. Introduction to Objectivist Epistemology [Introdução à Epistemologia Objetivista] permance sua melhor obra de filosofia, mas “The Objectivist Ethics” [Ética Objetivista] em The Virtue of Selfishness [A Virtude do Egoísmo] não fica muito atrás. Outras pérolas estão espalhadas em Capitalism: The Unknown Ideal [Capitalismo: O Ideal Desconhecido], The New Left: The Anti-Industrial Revolution [A Nova Esquerda: A Revolução Anti-Industrial] (releia “The Comprachicos” [Os Comprachicos]), e The Romantic Manifesto [O Manifesto Romântico] (“Art and Cognition” [Arte e Cognição] é poderoso aqui).

Reler Ayn Rand nem sempre é fácil. Seu estilo é claro e preciso, mas a prosa pulsa com o ritmo da ficção, levando você adiante antes de você ter tempo de digerir um argumento. Ela está no seu melhor quando utiliza metáfora ou analogia, ou, então, curtas frases descritivas que vão direto à essencia de uma questão. Ela levanta questões intelectuais com o poder de uma contadora de histórias das melhores. Ela é direta. Ela é única. Ela é Ayn Rand.

Concordar com ela? Claro que sim, mas faça-o como ela o faria: com uma inteligência crítica; equacione o seu assentimento à evidência, como Brand Blanshard o faria. Discordar dela? Por que não – apenas não represente erradamente os seus pontos de vista, como muitos o fazem. Ignorá-la? Você vai ser esquecido antes.

Para o bem e para o mal, nunca haverá outro como ela. Leia The Passion of Ayn Rand [A Paixão de Ayn Rand], siga seus argumentos em The Objectivist NewsletterThe ObjectivistThe Ayn Rand Letter e suas coleções de não ficção, e você aprenderá a apreciar o que ela realizou.

No que diz respeito à razão, ao individualismo, e ao liberalismo e capitalismo laissez-faire, ela foi a primeira a atrair a atenção do mundo neste século. Ela falou para aquilo que é o melhor de nós – e nós ouvimos.

Transcrito em Salto, 8 de Junho de 2016

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